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2 de março de 2015

Desde sempre

      Foto: Tina Sosna


Seduzem-me os movimentos deste momento
em que fecho os olhos para que os frescores da tua lembrança
me visitem com as lânguidas línguas do sentimento
Estremeço como se ainda colhesses serenamente uvas úmidas
no veludo inverso do meu sexo
com movimentos de peculiar doçura
O perfume quase marinho do ar dilata as minhas narinas
e posso sentir o calor do teu hálito subindo pelas minhas pernas
derramando pelo caminho palavras de náufrago
benditas palavras de nuvem
Como na primeira vez que tuas mãos buscaram meus contornos
- ainda exalavam um insone perfume de desertos -
estou envolta em cálida penumbra
e revejo teus olhos se acenderem nos meus seios
Aperto tua coxa entra a minha coxas
antes que me deites e abras devagar as minhas pernas
soprando um dialeto rouco em meus ouvidos
por onde me entorpeces e desvendas
Açoitam-me os dias arrastados em que essas imagens
só acenam de longe, como se te perdesse
na paisagem fosca do cotidiano
Poderia sangrar o coração até sangrar aquela noite
em minhas mãos
Onde repousavas, espírito e matéria que busco
no árduo exercício da existência?
Mais que amorosa mágica: rio em que levitassem pedras.

Ledusha Spinardi, in Exercícios de Levitação.


8 de outubro de 2014

Posso escrever os versos mais tristes esta noite

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Fonte: Leszek Kowalski

Escrever, por exemplo: «A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe.»

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a, e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a eu nos meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi já.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido

Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas tanto que eu a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta a tive nos meus braços,
a minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Embora esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda

2 de novembro de 2012

Do desassossego


Photobucket

peguei no meu coração
e pu-lo na minha mão
olhei-o como quem olha
grãos de areia ou uma folha
olhei-o pávido e absorto
como quem sabe estar morto
com a alma só comovida
do sonho e pouco da vida


Fernando Pessoa in: Livro do Desassossego

30 de março de 2012

A doença

Doutor, sinto algo mortal

aqui na região do meu ser.
Doem-me todos os órgãos:
de dia dói-me o sol,
e à noite a lua e as estrelas.

Sinto uma pontada na nuvem do céu
em que até então nem tinha reparado
e acordo todas as manhãs
com uma sensação de inverno.

Em vão tomei toda espécie de medicamentos,
odiei e amei, aprendi a ler,
e até li alguns livros.
Falei com homens e pensei: fui bom e fui belo.

Mas tudo isso não teve nenhum efeito,
doutor.
E gastei com isso um montão de anos.
Penso que adoeci de morte
um dia,
quando nasci.

Marin Sorescu

17 de agosto de 2010

Tenho uma dor de concha extraviada.

Uma dor de pedaços que não voltam.


Manoel de Barros

8 de janeiro de 2010

Não te quero senão porque te quero

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Katia Chausheva

Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.

Tal vez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.

Pablo Neruda

Eu te amo. E isso me basta no momento.

4 de janeiro de 2010

Tenho tanto sentimento (?)*


 photo GraaLoureiro.jpg

Graça Loureiro

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti nada afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

Fernando Pessoa

1 de março de 2008

Das considerações iniciais


Foto de Vinc Vicenty


É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor,
é urgente permanecer.

Eugénio de Andrade