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26 de maio de 2010

As palavras que eu nunca te disse


Jamais olhava para trás, jamais:

o que estava feito, estava feito,
estava consumado,
estava para sempre imutável,
inamoldável.

Caio Fernando Abreu


"Já não me lembro da última vez que escrevi. Não me apetece chorar nem oferecer os pulsos à melancolia quando ouço certas e determinadas músicas. Muito menos quero ler os poemas tantas vezes sublinhados, nem mesmo aquelas páginas discretamente dobradas aos cantos, a lembrar as eternas marcas nesses livros proibidos. É que ainda assim, depois de todos os esforços, continuo a achar as pessoas magoadas mais bonitas e autênticas: têm sempre muitas vidas para contar. Acabei - agora - de fazer notar mais um fracasso universal. Se calhar a única verdade é esta: i hate sleeping alone. Vês? Aqui se mostra a nossa triste transparência. Não precisamos de espelhos sequer. A ferida faz-nos olhar em frente à procura de uma cura em sítio incerto. E quem não percebe isso nunca poderá atravessar comigo aquela ponte. A que me leva ao meu lado mais feliz."


29 de julho de 2009

h o j e




já não tenho dor. anestesiei_me de nada. todos me dizem: "estás mais magra" e começo a não me preocupar. o melhor é não pensar. não estar. não te ver. não falar. assim como que fechada passa_me o tempo devagar e não faço nada.


daqui.


alguém me explica?

19 de outubro de 2008

Só tenho passado, disse.

Estás muito calada hoje. Tem sido assim todos os dias. Desculpa, sei que não gostas. Alguém que me chama. Uma voz baixinha que diz: Estás muito calada hoje. E eu finjo o meu melhor sorriso e digo que está tudo bem. De lágrimas nos olhos. Às vezes olho para o infinito à tua procura – lembro-me de sorrir – e depois vem o choque da tua ausência. Não é por mal. Só não me peçam – por favor – para esquecer-te. Agora és assunto proibido. Como se tudo o que (me) foste desaparecesse mais facilmente por não ter – já? – o teu nome debaixo da língua. É impossível não pensar em ti. Subo a rua e espero ver-te acenar da janela. E porque te tive sempre como uma certeza – agora fazes-me falta. Já não vens sentar-te de mansinho aos pés da minha cama para apanhar sol. Não fazes as habituais perguntas (tão curiosas!) e também não vamos mais à praia. Quando o telefone toca já não me devolve a tua voz alegre do outro lado. Iluminavas-me, sabias? E eu nunca te disse, por vergonha. Pensei que teria todo o tempo do mundo e, sabendo que não o tinha, nunca soube dizer-te palavras bonitas. Eras tu que as dizias sempre. Aqueles fins de tarde – tu a agarrares-me a mão, ou eu com medo que me fugisses, não sei ao certo – e as tuas palavras certeiras a ecoarem no meu peito. As histórias que contaste, com toda a paciência, e os sorrisos que me roubaste. Que me roubavas constantemente. Eu só soube dizer – sempre sem jeito – Gosto muito de ti. Dizia-o interiormente a todos os instantes, vezes sem conta. Disse-te, ao menos, uma vez? Acredito que sim. Não me esqueço dos teus olhos fixos nos meus, aquele fulgor a fugir-te devagar, e a tua coragem. Sim, a tua enorme coragem. Estás muito calada hoje. Tenho pensado em ti. Só isso. Sinto que me acompanhas e não posso – porque não quero – esquecer-te. Perdoa por acreditar tão piamente nisto. Prometeste que tomavas conta de mim. E sei que também tu não me esqueces. Na verdade, não posso falhar à promessa que te fiz nem desprezar a lição de vida que me deste: Vai ficar tudo bem.


danço contigo a doce dança dos erros sempre.

14 de fevereiro de 2008

Ausência ¹





Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto. No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida. E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado. Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado. Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face. Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada. Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite. Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço. E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos. Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir. E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas. Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.¹



¹ Vínícius de Moraes / ² Foto de Angelicatas