9 de novembro de 2009

Todos os dias que vieram depois,

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eram tempo de doer. Miguilim tinha sido arrancado de uma porção de coisas, e estava no mesmo lugar. Quando chegava o poder de chorar, era até bom - enquanto estava chorando, parecia que a alma toda se sacudia, misturando ao vivo todas as lembranças, as mais novas e as muito antigas. Mas, no mais das horas, ele estava cansado. Cansado e como que assustado. Sufocado. Ele não era ele mesmo. diante dele, as pessoas, as coisas perdiam o peso de ser. Os lugares, o Mutum - se esvaziavam, numa ligeireza, vagarosos. E Miguilim mesmo se achava diferente de todos. Ao vago, dava a mesma idéia de uma vez, em que, muito pequeno, tinha dormido de dia, fora de seu costume - quando acordou, sentiu o existir do mundo em hora estranha, e perguntou assustado: - "Uai, Mãe, hoje já é amanhã?!"


Guimarães Rosa em Manuelzão e Miguilím

3 de novembro de 2009

Deixo tudo assim

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Foto de Katia Chausheva

É hora de me [re]construir - [re]constituir e ver o horizonte distante. Quem sabe a maré não vire? Pode ser que um dia eu já não sinta os teus sinais. E de fato, já não os sinto. Mas não se preocupe, sobre estar só eu sei nos mares por onde andei. A tua amizade era meu bálsamo.



O fato é que sem você sou pá furada. (LH)

29 de julho de 2009

h o j e

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já não tenho dor. anestesiei_me de nada. todos me dizem: "estás mais magra" e começo a não me preocupar. o melhor é não pensar. não estar. não te ver. não falar. assim como que fechada passa_me o tempo devagar e não faço nada.


daqui.


alguém me explica?

26 de julho de 2009

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É difícil perder-se.
É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar,
mesmo que achar-me seja de novo a mentira em que vivo.

Clarice Lispector

29 de junho de 2009

Fragmentos ao vento.

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Gradativamente, fui vendo mais claro, aprendi um pouco do que sabia. Até então, tinha sido sempre ajudado por um espantoso poder de esquecimento. Esquecia tudo e, em primeiro lugar, as minhas resoluções. No fundo, nada contava. Guerra, suicídio, amor, miséria, prestava atenção nisso, é claro, quando as circunstâncias me obrigavam, porém de maneira cortês e superficial. Às vezes, fingia apaixonar-me por uma causa estranha à minha vida mais cotidiada. No fundo, porém, eu não participava dela, exceto, é claro, quando minha liberdade era contariada. Como dizer-lhe? Tudo isso resvalava. Sim, tudo resvalava por mim.

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Sejamos justos: acontecia serem meritórios os meus esquecimentos. Já notou que há pessoas cuja religião consiste em perdoar todas as ofenças, e que efetivamente as perdoam, mas nunca as esquecem. Eu não era feito de matéria que me permitisse perdoar as ofensas, mas acabava sempre por esquecê-las.

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Sobretudo, não acredite nos seus amigos quando lhe pedirem que seja sincero com eles. Só anseiam que alguém os mantenha no bom conceito que fazem de si próprios, ao lhes fornecer uma certeza suplementar, que extrairão da sua promessa de sinceridade. Como poderia a sinceridade ser uma condição da amizade? O gosto pela verdade a qualquer preço é uma paixão que nada poupa e que nada resiste. É um vício, às vezes um conforto, ou um egoísmo. Portanto, se o senhor se encontrar neste caso, não hesite: prometa ser verdadeiro e minta o melhor que puder.

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Não nos perdoam a nossa felicidade, nem o nosso sucesso, a menos que se consinta generosamente em reparti-los. Mas, para ser feliz, é preicso não se envolver demias com os outros. A partir daí, as portas se fecham.

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Meu caro amigo, não demos pretexto para nos jugarem, por pouco que seja! Caso contrário, nos deixam em pedaços. Somos obrigados às mesmas precauções que o domador. Se ele tem a infelicidade antes de entrar na jaula, de cortar-se com a navalha, que banquete para as feras! Compreendi isso num relance, no dia em que me ocorreu a suspeita de que, talvez, eu não fosse tãodigno de admiração. A partir de então, passei a ser desconfiado. Ja que sangrava um pouco, estava totalmente perdido: iam devorar-me.




in: A Queda, Albert Camus

19 de abril de 2009

Re-pensar.

É a mesma sensação: a de não enquadramento. Sentia-me infeliz e acreditava que escondendo até de mim mesma meus pensamentos sombrios e reflexivos eu ficaria melhor. Agora sinto que tudo está perdido, que não haverá mais volta. Vejo a multiplicidade dos caminhos. Alguns, arrebatam-me o sono e os sonhos. Outros, sinto latejar dentro de mim a espera de uma palavra: o sim. O mesmo sim que destrói esperanças de horas melhores. O mesmo sim que pouco a pouco faz desabar algumas de minhas forças, no sentido de tentar fazer com que as coisas caminhem relativamente bem até o final desse período. Final que visualizo com temor e torpor. Será que me sobrará forças pra recomeçar, para compreender o novo, para me permitir ser amparada com o devido cuidado que jamais senti nesse lugar? Era a mesma sensação: não era ali meu lugar, nunca o fora. Agora percebo com toda a agonia. Preciso me desfazer. Redescobrir-me, reencantar-me e refazer-me em outros espaços onde eu possa ter liberdade de sentir, de fazer, de poder, de ser. Essa descoberta um pouco tardia é o que mais machuca. Na verdade, tem tanta coisa que machucando tanto que é no âmbito das impossibilidades pesar o mais e o menos.

10 de abril de 2009


É sempre a mesma sensação: a de que já vivemos tudo, já sentimos tudo, já entregamos tudo. Demoro a perceber se nos resta algo no qual possamos nos apoiar. Às vezes a queda se principia e nunca a senti tão perto. É essa presença contínua que me escapa por entre os dedos e sobre a qual já nada posso fazer que me tira o sossego. Teremos coisas bonitas para contar? Já não tenho forças - o cansaço me rouba qualquer possibilidade de futuro. Faz alguma diferença agora?
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Tanto tempo pra pensar
Mas no meio na correria acho que não deu
Eu tentando consertar a nossa história
Mas sem a sua ajuda, não aconteceu
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Acontece que se fosse esperta
E desse tempo ao tempo
Não seria assim
Sugando tudo o que tenho de forças
Eu ja não estou querendo mais você pra mim
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Infelizmente é assim
Termina-se uma história
Que a gente mal começou
Se tomasse cuidado com meus sentimentos
Talvez meu coração ainda fosse seu
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Esse final não me agradou
E o nosso entendimento
Não aconteceu
Eu que lutei um dia pra te ter ao meu lado
Agora eu te confesso
Quem não quer sou eu
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Fui eu quem te dei
O primeiro beijo
O primeiro toque
A primeira canção
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Se realmente quer ficar comigo
Não faz bola de meia com meu coração
Tanto tempo, tanto tempo
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Seu Jorge