2 de abril de 2016

Perdi-te

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Deito fora as imagens, Sem ti para que me servem as imagens? Preciso habituar-me a substituir-te pelo vento, que está em toda a parte e cuja direcção é igualmente passageira e verídica. Preciso habituar-me ao eco dos teus passos numa casa deserta, ao trémulo vigor de todos os teus gestos invisíveis, à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve a não ser eu. Serei feliz sem as imagens. As imagens não dão felicidade a ninguém. Era mais difícil perder-te, e, no entanto, perdi-te. Era mais difícil inventar-te, e eu te inventei. Posso passar sem as imagens assim como posso passar sem ti. E hei-de ser feliz ainda que isso não seja ser feliz.


Raul de Carvalho

17 de março de 2015

Não há salvação

Foto Tina Sosna

Calma, calma, também tudo não é assim escuridão e morte. Calma. Não é assim? Uma vez um menininho foi colher crisântemos perto da fonte, numa manhã de sol. Crisântemos? É, esses polpudos amarelos. Perto da fonte havia um rio escuro, dentro do rio havia um bicho medonho. Aí o menininho viu o crisântemo partido, falou ai, o pobrezinho está se quebrando todo, ai caiu dentro da fonte, ai vai andando pro rio, ai ai ai caiu no rio, eu vou rezar, ele vem até a margem, aí eu pego ele. Acontece que o bicho medonho estava espiando e pensou oi, o menininho vai pegar o crisântemo, oi que bom vai cair dentro da fonte, oi ainda não caiu, oi vem andando pela margem do rio, oi que bom bom vou matar a minha fome, oi é agora, eu vou rezar e o menininho vem pra minha boca. Oi veio. Mastigo, mastigo. Mas pensa, se você é o bicho medonho, você só tem que esperar menininhos nas margens do teu rio e devorá- los, se você é o crisântemo polpudo e amarelo, você só pode esperar ser colhido, se você é o menininho, você tem que ir sempre à procura do crisântemo e correr o risco. De ser devorado. Oi ai. Não há salvação.

Hilda Hist, em Fuxo-floema,

9 de março de 2015

Amo-te em distância


 Foto Tina Sosna

consigo amar-te calmamente à distancia. meu corpo consegue esquecer-te apenas o suficiente para que aguente os dias que seguem sem ti. teu calor ainda inflama minha pele. a tua memória em mim enche-me o peito de esperança: um dia, encontraremo-nos. iremos compor as coisas. te espero a cada minuto. te lembro a cada minuto. é como se estivesses aqui a partilhar comigo esses dias chuvosos. acompanha-me a rotina, de todo modo. sabes a hora que me desperto, o que agrada-me o paladar todos os dias, os sentimentos que assolam-me a encostar a cabeça ao travesseiro. estás tão perto e nem imaginas. tenho urgência do teu corpo a arder-me inteira. no entanto, consigo esperar-te com paciência. fazes-me falta.

2 de março de 2015

Desde sempre

      Foto: Tina Sosna


Seduzem-me os movimentos deste momento
em que fecho os olhos para que os frescores da tua lembrança
me visitem com as lânguidas línguas do sentimento
Estremeço como se ainda colhesses serenamente uvas úmidas
no veludo inverso do meu sexo
com movimentos de peculiar doçura
O perfume quase marinho do ar dilata as minhas narinas
e posso sentir o calor do teu hálito subindo pelas minhas pernas
derramando pelo caminho palavras de náufrago
benditas palavras de nuvem
Como na primeira vez que tuas mãos buscaram meus contornos
- ainda exalavam um insone perfume de desertos -
estou envolta em cálida penumbra
e revejo teus olhos se acenderem nos meus seios
Aperto tua coxa entra a minha coxas
antes que me deites e abras devagar as minhas pernas
soprando um dialeto rouco em meus ouvidos
por onde me entorpeces e desvendas
Açoitam-me os dias arrastados em que essas imagens
só acenam de longe, como se te perdesse
na paisagem fosca do cotidiano
Poderia sangrar o coração até sangrar aquela noite
em minhas mãos
Onde repousavas, espírito e matéria que busco
no árduo exercício da existência?
Mais que amorosa mágica: rio em que levitassem pedras.

Ledusha Spinardi, in Exercícios de Levitação.


8 de outubro de 2014

Posso escrever os versos mais tristes esta noite

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Fonte: Leszek Kowalski

Escrever, por exemplo: «A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe.»

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a, e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a eu nos meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi já.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido

Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas tanto que eu a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta a tive nos meus braços,
a minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Embora esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda

26 de setembro de 2014

VI

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Fonte: Tina Sosna

Entro no quarto, procuro refúgio no passado. Mas não posso me esconder inteiramente nele. Não sou o que era naquele tempo. Falta-me tranquilidade, falta-me inocência, estou feito um molambo que a cidade puiu demais e sujou.

[Graciliano Ramos, em Angústia, p. 24]

Parece-me que estou a perder tudo. Continuamente, tudo escapa-me. Nada fica no meu coração. Tenho visões. Pensamentos confusos. Lembranças embaçadas. Cada dia tenho mais medo. Cada dia endureço mais. Perdi o sono novamente. Difícil dormir. Ando intranquila. Atormentada com a memória infalível do teu riso. Da tua graça. De ti. Por que não me permites sossegar o coração? Coisas que antigamente me agradavam tornaram-se insustentáveis de se realizar: ler um livro, ver um filme, estar com amigos. Tudo é difícil, pesado, insuportável. Perdi muito com o pensamento em ti. E algumas perdas, percebo com dor, são irreparáveis. Sento-me no bosque. Gosto de ver desconhecidos. Tento adivinhar-lhes os gostos, os sorrisos. Trazem algo no coração? Estão tão assustados quanto eu? Conseguem dormir ao encostar a cabeça no travesseiro? Penso: nada mais me afeta. No entanto, enchem-se de lágrimas meus olhos apenas com o balançar das árvores pelo vento. Fecho meus olhos. Sinto o vento dentro de mim. Peço tranquilidade para os meus dias. Esperança para os meus sonhos. Coragem para continuar. Os anos pesam sobre meu corpo. Minha face expõe os primeiros estragos do tempo. Pessoas ao meu lado conversam e a vida parece-me tão simples, agora. Não mais escuridão profunda. Gosto de olhar as pessoas. 

12 de setembro de 2014

É da tua mão que eu preciso agora



Fonte: Tina Sosna


É da tua mão que eu preciso agora. Há momentos, sabes, que me sinto tão cansado, todos estes dias cheios de palavras que me fogem. Então penso em ti: Joana. Penso: vou contar-te uma coisa. Há pouco tempo morreu a filha de um amigo meu, homem generoso e bom, melhor do que alguma vez fui. Um cemitério é um lugar horrível e a dor dele doía-me. Depois de tudo acabar voltei para o automóvel. Eram muitos passos nas veredas a voltarem para os automóveis. O caixãozinho branco. Aquelas árvores que tu conheces de quando a gente há dois anos. Despedi-me das pessoas um pouco ao acaso, sem sentir os dedos que apertava: têm tantos dedos as pessoas. Nem me lembro já porquê abri a mala do carro. Estavam lá dentro coisas tuas de Espanha: batas, papéis, as inutilidades confusas que estás sempre a juntar. Peguei numa das tuas batas, abracei-a. E desatei num choro de menino, de cabeça inclinada para a mala do carro na esperança de que não me vissem. Depois lá enxuguei o nariz à manga
nunca perdi o hábito de enxugar o nariz à manga
engoli-me a mim mesmo e vim-me embora. Sempre que me sento no teu carro lembro-me de ti. Também me lembro quando não me sento no carro mas sempre que me sento no carro lembro-me de ti. De ti e de Malanje onde começaste a ser, e as mangueiras tremem-me no interior do sangue.
Mas é da tua mão que eu preciso agora. Há momentos em que me farto de ser homem: tudo tão pesado, tão estranho, tão difícil. Eu vou tendo paciência e no entanto, às vezes as coi­sas magoam, há ideias que entram na gente como espinhos. Não se podem tirar com uma pinça: ficam lá. É então que a cara prin­cipia a estragar-se e a gente
dizem 
envelhece. Necessito de muito pouca coisa hoje em dia: uns livros, o meu trabalho de escrever, amigos que se estreitam com o tempo, alguns deixados para trás, não sei onde. A minha avó dizia que fui a pessoa por quem chorava mais. Nunca acre­ditei. Era autoritária, mimada, sedutora: tratava-me tão bem! Jogávamos a ver qual de nós dois conquistava o outro: andáva­mos mais ou menos empatados 
(sabes como detesto perder) 
e nisto ela morreu. Recordo-me de sair de sua casa e vir à cervejaria comer. Ainda não tinha tempo de sentir-lhe a ausên­cia. Pedi o jornal desportivo ao empregado. Ao voltar para cima achei-a vestida sobre a cama. 
Agora é novembro, tenho frio, ando às voltas com um romance de que não estou a gostar. Nunca estou a gostar do que escrevo, acho aquele em que trabalho o mais difícil, acho que as palavras me derrotam. Frases puxadas como pedras de um poço que não vejo. Banalidades que me indignam por estarem tão longe do que quero. Capítulos que me fogem, o plano da his­tória dinamitado pelos caprichos da minha mão, que não faz o que pretendo: escapa-se sempre, inventa, tenho de apanhá-la a meio de um período inverosímil. Talvez seja por isso que preciso da tua. Ou não por isso: não bebo e no entanto há alturas em que me sinto tão só que é quase o mesmo. E sem essa solidão não me é possível escrever. O meu amigo a quem morreu a filha chama-se José Francisco. Quando sorri os cantos da boca parecem levantar voo. Faz-me bem. Gostava de sorrir assim. Experimentei ao espelho e não é igual. Quer dizer, a boca curvou-se mas os olhos ficaram fixos, duros. Deixei de sorrir e enchi a cara de espuma da barba, até ser apenas nariz e olhos. Então sorri outra vez e os olhos acharam graça e mudaram. Os meus olhos sérios olhavam para os meus olhos divertidos. Pisquei o esquerdo e o espelho piscou o direito. Lavei a cara, apaguei a luz, saí. Por um segundo veio-me a sensação de caminhar em Malanje. Aquele cheiro da terra, demorado, opaco, violento. E pronto, é tarde. Em chegando ao fim da página aca­bou-se. Ponho a tampa na caneta, os cotovelos na mesa e fico a observar a parede. Nem vou reler isto, mando tal e qual. Prefiro observar a parede, deixar-me impregnar devagarinho pela essên­cia das coisas. Esta cadeira, aquele móvel, uma manchinha de cinza no chão, as minhas mãos geladas de frio a acabarem esta crónica. Se calhar amanhã telefono-te. Ou regresso ao romance na teimosia dos cães. Penso: nem que deixe a pele nele hei-de conseguir acabá-lo. Comecei-o no princípio de outubro, falta muito. Alinho os papéis, ponho tudo em ordem para a escrita. Nem que deixe a pele nele hei-de conseguir acabá-lo. Leio a última frase, continuo. Só por um bocadinho de nada, antes que continue, importas-te de tirar as batas do carro? Importas-te de me dar a mão? 

[António Lobo Antunes, em Segundo Livro de Crónicas]