27 de novembro de 2008

Ruínas

fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro


do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.



José Luis Peixoto, in A criança em Ruínas


4 comentários:

diana disse...

Lindo demais!

Uma Lora qualquer disse...

'um oceano q no queima!'
'fingir que está tudo bem!'
Somos mestres nisso!
_

Novo post finalmente, minha alma anseia por teus versos!

Lici in the sky with diamonds disse...

sei sobre esse texto.. sei bem, mas não faço com excelência. Dissimulação nunca foi meu forte. :*

lyani disse...

Adoro esse autor!
Esta citação é belíssima :D
bjos