1 de março de 2008

Por estarem distraídos

Faltava-lhe o ar. Ela respirava forte, tentando absorver o máximo do que estava ao seu redor. Ele mexia as mãos, abria os livros, procurava conhecidos distantes. Os olhares raramente se encontravam. E em meio a todo esse pânico que o silêncio lhes custava, havia a insaciável curiosidade de estarem juntos.

Embalados com a dança dos livros, havia a sutileza pura dos toques. A entrega de livros, o segurar dos dedos. Havia o calor que abafava e dificultava [ainda mais] a respiração. Havia a estonteante falta de ar. Havia pombos por toda a praça e eles voavam a procura de sonhos mais altos. Os pombos e eles.


O telefone toca. "Vem comigo!". Ela retruca "não, não posso...". " Vem, hoje você não tem escolha." Ela levemente se deixa conduzir, e em alguns minutos estariam sentados lado a lado. O silêncio não mais incomodava, tampouco o trânsito, mas a presença. A suas vozes estavam mais próximas, os seus risos sinceros comoviam. As frases bem articuladas, encantavam; as palavras, antes tão bem escolhidas, escapavam agora sem obstáculos. Espontâneas nas entrelinhas. Finalmente estavam distraídos. Tão distraídos que sequer notaram a presença dos homens armados que falavam docemente - passa a bolsa.


E passa tudo. Celular, bolsa, carteira, aliança, dinheiro. Algumas lágrimas teimosas caem. O toque nos cabelos acalma. Haveria a embriaguez de andarem juntos novamente? A intensidade lhes pesava. Saberiam eles suportá-la sem dor? Entrelinhas. Tudo, tudo, tudo por estarem tão distraídos.

Foto de Graça Loureiro

7 comentários:

Liciane disse...

Descrever e Escrever cenas vividas com a coerências dos sentimentos é o que me faz amar teus textos.

Jéssica Cavalcante disse...

Cada dia eu me surpreendo ao lÊ teu blog e isso me faz querer lê-lo todos os dias....
Continue escrevendo sempre!
e quanto ao que está escrito
recomendo-lhe que aproveite,sem muuuito alvorosso...

Cherlanyo Barros disse...

Karlinne, quando você me passou o link eu visitei o blog mas pensei q o texto primeiro continha aquela mesma passagem da Clarice... só agora li e percebi o seu texto, está incrível, de uma delicadeza tocante, cada palavra conspira para a criação de toda uma atmosfera...
Parabéns!

Lorena disse...

já disse uma vez..
Qndo eu crescxer quero escrever
igual à vc!

O cara tava armado?
pq se não tivesse eu daria uma bolsada na fuça dele! ¬¬
e um hadugen e um chute nos países baixos!!

nunquinha q fui assaltada..
só fui raptada uma vez e mesmo assim o sr sequestrador foi bacana e me levou de volta!

úfaaa

serena disse...

em tudo que tu escreve há uma beleza que transcende, sabia? e eu não falo isso porque abracei a causa do "amiga-babona", não. a sinceridade da escrita, as palavras (muito bem) selecionadas.. MEU orgulho!

ah, solzinho.. como eu sinto falta de estar distraída!¹





¹eu precisava dizer isso mais uma vez pra ver se o peso no peito diminuía - em vão..

Vanessa disse...

bem, parece que a clarice te inspirou! gostei muito! também me apetece andar distraída... ai ai! :p

beijinho*

Sam disse...

A maneira que descrevestes a cena toda, por um instante entrei no texto, vi pombas, senti o calor... e o susto!
E lá se vai mais um celular...

Bjos minha querida Anieta. =)