3 de janeiro de 2008

Do vento que vem do morro



Ela respondeu:
- Você e E. partiram meu coração. Depois de tudo que passou agem como se fossem pessoas dignas de pena. Mas eu não tenho pena de você, H.. Você me matou.
E recostando-se no travesseiro:
- Creio que isso lhe fez bem, pois vejo que está muito forte. Quantos anos pretende viver após a minha morte?
H. ajoelhou-se diante dela. Tentou ergue-se para de novo abraçá-la, mas ela segurou-lhe a mão e obrigou-o a ficar na posição que estava.
- Oh, H., gostaria de apertá-lo contra mim até que nós dois morrêssmos. Não me importaria que você sofresse com isso, pois eu sofro. Será que se esquecerá de mim? Será que vai sentir-se feliz quando eu estiver debaixo da terra?
- Não me torture com essas perguntas!- bradou ele, desprendendo a mão dela num arranco. Você acaba me fazendo ficar tão louco quanto você. Sabe que mente quando diz que a matei. Não, C., jamais a esquecerei e você sabe que isso é verdade. Seria mais fácil esquecer-me de mim próprio do que de você. Será que não basta para o seu egoísmo saber que eu continuarei no inferno enquanto você estará em paz?
- Eu jamais estarei em paz...- gemeu ela. - Mas não quero desejar-lhe maior tormento que o meu, H.. Só queria que nunca nos tivéssemos separado. Fique novamente perto de mim. Dê-me a sua mão.
E na sua angústia ela se ergueu e amparou-se no braço da cadeira. Àquele sincero e pungente apelo, ele a olhou com uma expressão desesperada. Por um instante, estiveram parados diante um do outro.
Mas, de repente, num ímpeto, eles deixaram-se estreitar num abraço tão ardente e demorado, que temi que C. não tivesse saído com vida. Cobrindo-a de frenéticas carícias, ele dizia alucinado:
- Oh, C., você foi cruel e falsa! Por que me desprezou? Por que traiu seu próprio coração? Você se matou, C.. Agora, pode me beijar e chorar, mas meus beijos e lágrimas só a condenarão. Você me amava, como tinha, então, o direito de me abandonar? Vamos, responda! Você me abandonou por um capricho. E. foi um capricho na sua vida. Nada do que Deus ou o Demônio nos pudesse infligir teria bastado para nos separar. Nós só nos separamos porque você mesma o quis. Eu não parti o seu coração: você mesma o partiu. E partindo-o, também partiu o meu. Se estou forte, tanto pior para mim. Quero por acaso viver? Que espécie de vida terei quando... Sim, C.: você gostaria de viver se tivesse sua alma encerrada numa sepultura?
- É melhor deixar-me sozinha... Deixe-me sozinha...- soluçava C.. Se agi mal, vou pagar com a vida por isso. Você também me desprezou, H..
Mas eu não o culpo por tê-lo feito. E peço-lhe que me perdoe.
No dia seguinte, assim que amanheceu, fui ao encontro de H. para dar-lhe a notícia, mas ele já sabia de tudo.
- Não foi necessário esperar por você para saber que ela morreu.- disse ele. E pare de chorar, ela não precisa de suas lágrimas. Quero que todos vocês se danem!
Eu realmente chorava, tanto por ela quanto por ele. Fosse como fosse, ele me inspirava pena.
H. olhou-me com súbita ansiedade:
- Como foi que ela morreu? Ela ainda tornou a perguntar por mim?
- Mesmo que quisesse perguntar, não lhe teria sido possível, pois não voltou mais a si desde que o senhor saiu. Morreu como se estivesse sonhando.
- Tomara que desperte no outro mundo em meio aos maiores tormentos!- bradou ele.- Ela foi, até o fim, uma mentirosa.
E num tom de verdadeira alucinação, começou a dirigir-se a ela, como se porventura ela estivesse ali e pudesse ouvi-lo:
- C., tudo que eu quero é que você não possa descançar enquanto eu viver! Você diz que eu a matei, não foi? Pois venham então, me assombrar! Dizem que a vítima persegue o seu assassino. Eu acretido nisso, sei que os fantasmas vagam pela Terra. Tome, pois, a forma que quiser e fique sempre comigo, até levar-me a loucura! Não quero que me deixe sem saber como posso encontrá- la. Oh, Deus, eu não posso viver sem a minha vida, eu não posso viver sem a minha alma.



Morro dos Ventos Uivantes-Emily Brontë

Foto de Vincent Teulière

2 comentários:

Lorena disse...

credo! Oo
está aih um livro q eu não quero ler!
viuxe.. me assutou!

amor nem é assim..
não é mesmo!
bjux

Bárbara disse...

Credo nada...
Esse livro é muito bom...E mostra que o amor não é um encanto como em vários outros livros...
Mas o Amor de Heathclif e Catherine sobrevive até depois da morte de Catherine...
Isso é um amor de verdade...
Não que eu não acredite nas coisas boas do amor mas, tem a parte ruim...
bjus