9 de novembro de 2009

Todos os dias que vieram depois,

eram tempo de doer. Miguilim tinha sido arrancado de uma porção de coisas, e estava no mesmo lugar. Quando chegava o poder de chorar, era até bom - enquanto estava chorando, parecia que a alma toda se sacudia, misturando ao vivo todas as lembranças, as mais novas e as muito antigas. Mas, no mais das horas, ele estava cansado. Cansado e como que assustado. Sufocado. Ele não era ele mesmo. diante dele, as pessoas, as coisas perdiam o peso de ser. Os lugares, o Mutum - se esvaziavam, numa ligeireza, vagarosos. E Miguilim mesmo se achava diferente de todos. Ao vago, dava a mesma idéia de uma vez, em que, muito pequeno, tinha dormido de dia, fora de seu costume - quando acordou, sentiu o existir do mundo em hora estranha, e perguntou assustado: - "Uai, Mãe, hoje já é amanhã?!"







Guimarães Rosa, em Manuelzão e Miguilím

3 comentários:

diana disse...

Há textos que nos marcam, quase que magoam com a sua intensidade. Este foi um deles.

Kanauã Kaluanã disse...

Pousei ao acaso... perambulei, e demorei-me pelo seu espaço.
Uma estética que me prende, a que adornas aqui.

Nada como o texto do grande Guimarães Rosa para dizer do seu apreciar boas palavras, ele que representa a maestria no [re]dizer, no [re]criar da linguagem.

Fiquei rendida.

Parabéns pelo blog.

Katyuscia.

montedenada disse...

bora voltar a escrever, bora.